sábado, 7 de julho de 2018

A MADRUGADA É SAGRADA

MANOEL HERCULANO


Hoje em dia
os dias evaporam feito fumaça de uma tragada
E a poesia
que parece não saber quando é noite
quando é dia
cisma de fazer visitas justo de madrugada
E vem sem ser convidada, surge do nada
em tom de ameaça, faz charme, pirraça
insiste em ser escrita, se não ela grita
Ah, pára, saiba que para muitos
solidão é coisa rara
E para mim, também é simples assim
a madrugada é sagrada
Me deixa, não é esta minha maior queixa
fico bem com minha solidão, minha multidão
Sei que os poemas andam em bando
e a inspiração se vangloria: sou eu que mando
Tá bom, dona poesia, vamos ver até quando
Mas ela bate o pé, pede um café
me lembra que poesia não vinga onde há pouca fé
me xinga e continua pegando no meu pé
É que mesmo sendo solitário
há sempre um verso solidário
Ela segue a resmungar
sedutora, geniosa, condutora, poderosa
Então tá, vou pousar em outro lugar
o que não falta é quem goste de madrugar
Aí não tem perdão
não tem como cortar esse cordão
me entrego à solidão da madrugada
dessa estrada
na lentidão do silêncio da pessoa amada
E antes que o sol ilumine um novo dia
o poema que madrugou anuncia
com ou sem solidão, desista não
porque resiste a poesia

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Aqui estou de volta com este poema que escrevi recentemente,
a partir da sugestão de um tema no sarau Declame Aqui!, ficou
pronto depois, claro. Mas decidi postar. São 17:15h do dia 7 de
julho/2018. E o Brasil se despediu da copa ontem, só pra constar...
Quero ver se vamos continuar sendo "uma só voz", ano de eleição.   

terça-feira, 15 de maio de 2018

PORTO SEM PORTA

MANOEL HERCULANO


Aquele 13 de maio não foi um simples desmaio
após tanta luta, tanta bordoada
no dia seguinte a gente livremente atordoada
com uma liberdade um tanto equivocada
uma felicidade tão retardatária
toda ancestralidade convocada
até Nossa Senhora da Candelária

Carregamos mais de 300 anos de dolorosos danos
e já são muito mais de cem cheios de enganos
foram mais de cinco milhões e uma trajetória
que entrou para a história
que não sai da memória

Aqui jaz o destino de um caminho pra lá de longe
desde mil oitocentos e onze
sem medalha de ouro nem bronze
para quem sobrevivesse àquele martírio tão longo
eis aqui o Cais do Valongo

Vai logo arrastar correntes, mostra esses dentes
vai fazer frente, só não te atreve a ir em frente
teus direitos múltiplos serão os últimos

Oh, indigno senhor, é muita dor
e somente por ter nascido de outra cor
mas, e o sorriso, o olhar, não contam?

Sim, eram contados, constatados como animais
sem considerar os anseios, os ancestrais
nem os deles, nem os meus
nem daqueles sem Deus

Adeus, minha grandiosa pequena África
e não é apenas pela distância geográfica
aliás, o que dizer ainda hoje dessa prática
de quem pratica, critica, discrimina
quem mata sonhos em nome da disciplina
apaga brilho no olhar do menino
esmaga possibilidades de voar da menina

A ganância do estrategista que traficava
a arrogância do escravagista que lá ficava
se achando o dono, digno do trono

Eu não aceito, bato mesmo no peito e cismo
porque não cabe na minha poesia
tanta descortesia, tanto racismo
já que uma vez cortados os cordões
cortavam também os pulsos
os impulsos dos corações
e sangravam todos os poros nos porões

Mas em busca da minha identidade
eu escavo, escavo, escavo
em nome da minha dignidade
me recuso a continuar escravo
viva a abolição, vivo em ebulição

Por isso venho a público, irei ao púlpito
denunciarei todo e qualquer vulto
devolverei cada insulto, ávido, aviltante
que enche o poeta de sentimento revoltante

Sai pra lá com esse teu mal
saiba que hoje o som é outro na Pedra do Sal
porque muito mais gente se importa
e quebra a corrente do porto sem porta

Então darei nome aos bois, às vacas, às raposas
em nome de vós que sois, sois pais, filhos, esposas
dos áureos contratempos da lei áurea
e das aulas dadas sem treta
porque sou da tribo negra
da colorida cor preta

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*****Enfim, este poema, que parecia resistir... Pode ser
que ainda troque uma palavra ou mesmo o nome, mas
aqui está. Era pra ter postado anteontem, dia 13, não
ficou pronto, e nem sei se está... Bem, são 15:30h do
dia 15 de maio/2018.
Obs: Há quase um ano comecei a pensar e escrever
após visita ao Cais do Valongo.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

QUANDOS

MANOEL HERCULANO


Quando perguntam quem sou eu na fila do pão
lembro-me que já fiquei um tempão
sem tê-lo à mesa
apesar da minha ascendência francesa
Então, respaldado pelo idioma maranhês
respondo en passant
na fila do pão francês
não sou nada menos que croissant

Quando me dão uma rasteira
e eu caio e me quebro
não fico na esteira
sempre me saio como um requebro
Encaro a calmaria, o impacto
e nesta romaria, neste pacto
mostro que quando me quebro não viro caco
eu viro cacto

Quando tentam me reduzir a cocô do cavalo
do bandido
eu, sem dar um coice nem latido
como pessoa quase ótima que sou
com todo respeito ao agressor
honro o nome Manoel
Cito minha conterrânea dizendo que não sou
um qualquer
porque, sabe como é, nascido em Santa Isabel
mesmo se fosse um cocô
eu seria Coco Chanel

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***** Fui rápido desta vez, começando 2018,
poema em minha homenagem (desculpa, Papa
Francisco)... rsrs. QUANDOS, que tal? Um
Ano Novo iluminado com saúde, prosperidade,
poesia, paz e bem. São 14h do dia 01/01/2018.
Gratidão! 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

QUAL É O ASSUNTO?

MANOEL HERCULANO


Oi!
O quê?
Do que se trata?
Não que eu queira questionar você
o poema não necessita de um porquê.
Mas ainda que a poesia campeã seja grata
e o poeta não seja fã do terno e gravata
se o verso não é de ouro
mesmo com licença poética
minha intuição profética
espera que seja no mínimo de prata.
Pouco importa se é adjetivo ou adjunto
se é apenas uma obra ou o conjunto
se sou eu que respondo ou que pergunto
só preciso descobrir qual é o assunto.
Não, exatamente, para entender.
Talvez, simplesmente, para pretender me situar
e não me perder viajando para outro lugar
Também não quero que o poema se cale
ele carece de quem o escreva, quem o fale.
Não é pelo simples fato da pessoa não ser uma Maria Callas
que direi estupefato: por que não te calas?
Pode-se falar sobre qualquer objeto, objetivo
um poema abjeto, abstrato, concreto, provocativo
paz e amor, de humor, tudo junto, tamo junto
mas por favor, qual é o assunto?
Peço que me entenda
só quero um verso que venha clarear
porém, se for sobre imposto de renda
nada a declarar.
Eu não gosto de dar trabalho
e até quando me espalho
eu mesmo me ajunto
Portanto, desculpa a insistência
a falta de paciência
é que com o tempo, às vezes, pouco é muito.
Então, para não correr riscos
e num emaranhado de rabiscos
confundir mortadela com presunto
pelo amor de Deus, qual é o assunto?

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***** Ô DE CASA!... Estou de volta, após muito tempo sem postar, 
estava/estou trabalhando/vendendo o LIVRO. Bem, voltei com este
poema escrito recentemente, já que tenho vários outros inacabados,
ideias anteriores, mas há muito tempo que ouço a seguinte pergunta:
qual é o assunto? Não sei se devo citar nomes mas, Leila Oli... rs.
Então decidi e consegui (será?) colocar um ponto final e postá-lo, 
torço para que gostem, é na linha do humor, claro. São 18h (o sino 
está tocando ali na Igreja Santo Antônio, amém!), horário de verão, 
do dia 13/12/2017. Meu agradecimento e abraços para todas/todos
visitantes. Salve, salve!

PS. Meu livro Ô DE CASA RIO MARANHÃO continua à venda

comigo, está indo muito bem, graças a Deus e a vocês que gostam
do meu trabalho. Grato! 

domingo, 1 de outubro de 2017

AMIGOS, em breve postarei novo poema, estou trabalhando alguns... Demorei bastante desta vez, mas é porque estou divulgando/vendendo o livro... Enfim, leiam os poemas aqui, leiam o meu livro Ô DE CASA - RIO MARANHÃO, à venda comigo. Fale pelo Facebook, in box, ou pelo e-mail: poetaherculano@gmail.com

Muito obrigado! Abraços.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

SOBRE O LIVRO

Ô DE CASA - RIO MARANHÃO, meu primeiro livro, foi lançado com sucesso, numa noite espetacular, dia 5.4.2017 no CCJF, e está na praça, sendo vendido por mim. Se você deseja adquirir um exemplar, fale comigo no Facebook ou por e-mail: poetaherculano@gmail.com
Ah, tem camiseta da POEME-SE também, com meu verso: "E se a vida é uma escola, então vai ter que ter recreio". Peça a sua!
E agora que tal ler minha postagem mais recente aqui no Blog? Está logo abaixo. Grande abraço!

PRÓXIMA ESTAÇÃO

MANOEL HERCULANO


Piuí, piuí, Piauí, peraí, ainda não é aí
é na próxima estação
ali no Maranhão
Mas o coração não se contém
já não cabe na cabine deste trem
e tudo certo, tudo bem
tem sido assim desde Belém
A poesia deita e rola no trilho
e nos olhos outro brilho
emoção além, a perder de vista, a mil e cem
Trem azul, trem da alegria, trem bom
trem das onze que apita ao passar por Timon
E passa tudo diante das vistas da janela
passa ela
e o trem fica mais cheio de graça
quando cruza com a Maria Fumaça
Os enamorados pegam fogo
jogam mais lenha na fogueira
uns perdem a voz
outros desenvolvem gagueira
Diante daquela paisagem pintada quadro a quadro
a seca, as cercas, a pastagem
quem ama vê beleza ao quadrado
Há sempre uma flor solitária embelezando a área
um pássaro cantante e poeta o bastante
uma lua para banhar tudo e todos sem distinção
uma residência, uma resistência
um apito, um grito
uma denúncia de extinção
Tantos lugares revisitados
olhares requisitados
que o azul vira azulejo
minha amada, há quanto tempo não te vejo
Por isso voltei ao passado
para dizer que ao teu lado meu rio é todo mar
e que o verbo amar tinha outro valor
quando eu chegava de trem na Ilha do Amor

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Estou de volta, após lançamento do meu livro
"Ô DE CASA - RIO MARANHÃO" que agora
anda comigo por aí, quem vai querer?... E com
este poema (mais um sobre trem) que entrou na
Antologia "O trem e o imaginário IV" a pedido
da querida Lydia Simonato. Participei de três:
Tempos de trem, RJ 450, e agora com este que,
sendo cobrado, enviei de última hora, mas acho
que ficou bom, resolvi postar aqui, deve entrar no
meu próximo livro com outros poemas daqui que
não entraram no "Ô de casa...", primeiro livro.
Bem, eu quero agradecer muito as visitas aqui no
Blog, têm me surpreendido. Muitos poemas estão
no livro, principalmente os que fazem parte do
espetáculo que apresento. Então leia o Blog,
compre o livro, assista/contrate o espetáculo.
Obrigado! CONTATO: poetaherculano@gmail.com
Agora é 1:20h do dia 21.04.2017, feriado... E dia
25 é meu niver, vou comemorar e lançar o livro
no Corujão da Poesia. Viva! Dia 5 foi Liiindo!!!
Abraços e beijos.
MH